Família: o educandário para a evolução por Marco e Cristina Leite

“[…]  a escola educativa

do lar só possui uma fonte de renovação que é o Evangelho,

e um só modelo de mestre, que é a personalidade excelsa do Cristo.”

(Emmanuel, O Consolador, Q.112)

 

Eis que os pais recebem em seus braços o filho tão esperado; o corpo frágil e a extrema dependência despertam sentimentos intensos, favorecendo que um vínculo de amor-responsabilidade se forme, acompanhando a tríade por toda vida. Indubitavelmente, a maternidade e a paternidade representam uma missão sublime, por favorecer o desenvolvimento do amor, em sua maior intensidade e extensão.

A Doutrina Espírita classifica o lar como uma escola, na qual os espíritos dos pais encontram-se incumbidos de auxiliar no progresso dos filhos, exercendo grande influência sobre estes, que lhes seguirão os exemplos, conforme resposta à questão 383 do Livro dos Espíritos “Encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período[1], é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo.” Também é escola para os pais, que deverão demonstrar o seu aprendizado no caminho correto, mesmo que ainda não tenham as atitudes corretas automatizadas, e ainda que precisem fazer um esforço descomunal para desempenhar estes novos comportamentos, domando suas más inclinações para ser um exemplo melhor para os seus descendentes.

Em o Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. VIII – Bem-aventurados os que têm puro o coração, o Prof Rivail assegura que o espírito “a partir do nascimento, suas ideias tomam gradualmente impulso, à medida que os órgãos se desenvolvem, pelo que se pode dizer que, no curso dos primeiros anos, o Espírito é verdadeiramente criança, por se acharem ainda adormecidas as ideias que lhe formam o fundo do caráter. Durante o tempo em que seus instintos se conservam amodorrados, ele é mais maleável e, por isso mesmo, mais acessível às impressões capazes de lhe modificarem a natureza e de fazê-lo progredir, o que torna mais fácil a tarefa que incumbe aos pais[2].

A educação no ambiente doméstico é complexa e diversificada, porque nas pequenas tarefas cotidianas residem belas oportunidades de desenvolvimento das virtudes do Homem de Bem, considerando que a disciplina e a responsabilidade são essenciais àquele que se propõe a ser um homem renovado. Fato que no estágio atual de evolução em que nos encontra a Terra, a perfeição está distante do que se espera de cada ser residente neste plano da vida, mas a sua determinação na constituição do Homem Novo, anunciada por Paulo de Tarso, é o verdadeiro bom combate a ser travado no campo imenso que é o lar.

O período infantil é o mais favorável para que sejam formados novos valores morais, que irão servir de referenciais para estes espíritos que reiniciam a sua trajetória evolutiva, por meio da reencarnação. Aos pais compete o empenho máximo nesta missão, que poderá representar momento de júbilo, quando bem executada a missão, ou de tormento, quando percebe que falhou em sua tarefa bendita.

Ainda no Evangelho, encontramos Allan Kardec afirmar, ao tratar das Causas atuais das aflições, no cap. V, que “quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não lhes combateram desde o princípio as más tendências! Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os germens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração; depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de deferência com que são tratados e da ingratidão deles”.

Quando, em momentos de adversidades representadas por perdas financeiras ou por uma doença física, se os pais exemplificam a resignação, a persistência, a disciplina, a labuta para a recuperação e a humildade, estão igualmente, trazendo para o lar e aos seus integrantes, a prova da conduta sustentada nos preceitos da Doutrina Espírita, que o Cristo nos apresentou, que nos ensina que nada acontece ao acaso e, por isso, faz-se necessário viver em paz, apesar das dores que a vida oferece, tendo a certeza que a superação não está na eliminação do mal, mas no aproveitamento da lição, gerando transformação íntima e auto superação.

As primeiras lições de amor, respeito e fé são desenvolvidas no lar, por meio da observação que os filhos fazem dos comportamentos parentais, mesmo os mais sutis e desprovidos de qualquer linguagem. Por isso, os pais presentes e que participam da vida dos filhos têm mais condições favoráveis ao desenvolvimento de atitudes positivas nos pequeninos, lembrando ainda que os pensamentos bem cultivados, ao lado da prece são recursos disponíveis para os genitores agirem a favor do crescimento espiritual do filho que lhe nasceu e está confiado. (O Livro dos Espíritos, Q. 210)

Assim, refletindo sobre as condições do lar para o cumprimento da sua tarefa educativa, é imperioso lembrarmos da importância da higiene psicoespiritual do ambiente doméstico, que pode ser obtida a partir da prática do Evangelho no Lar, aliada a prece constante e a vigilância das práticas realizadas em casa, sendo recomendável, por exemplo, evitar assistir programações televisivas violentas e/ou vulgares, considerando a questão da sintonia espiritual que é ativada nestas condições.

Lembremos das considerações de Emmanuel, em O Consolador:

“[…] Os pais espiritistas devem compreender essa característica de suas obrigações sagradas, entendendo que o lar não se fez para a contemplação egoística da espécie, mas, sim, para santuário onde, por vezes, se exige a renúncia e o sacrifício de uma existência inteira.”

(Questão 113)

O importante é a promoção das condições adequadas para evolução moral dos filhos, de forma determinada e fundamentada na fé, pois o encontro entre pais e filhos não se dá ao acaso, mas caberá aos primeiros dar conta perante Deus quanto ao desempenho de sua missão. Assim nos fala Santo Agostinho, em uma mensagem inserida no Evangelho Segundo o Espiritismo, no cap. XIV – Honrai a vosso pai e a vossa mãe:

“Ó espíritas! Compreendei agora o grande papel da Humanidade; compreendei que, quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do Espaço para progredir; inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo o vosso amor em aproximar de Deus essa alma; tal a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes. Os vossos cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro. Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa guarda? Se por culpa vossa ele se conservou atrasado, tereis como castigo vê-lo entre os Espíritos sofredores, quando de vós dependia que fosse ditoso. Então, vós mesmos, assediados de remorsos, pedireis vos seja concedido reparar a vossa falta; solicitareis, para vós e para ele, outra encarnação em que o cerqueis de melhores cuidados e em que ele, cheio de reconhecimento, vos retribuirá com o seu amor.”

 Possamos estar cônscios de nossa missão na maternidade e paternidade responsável e não cometer os mesmos desenganos de outrora.

[1] O período referenciado é o da infância.

[2] Grifo nosso.

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